Irmãos de crianças com deficiência sentem ciúmes?

By Kerol | Blog

Crianças pequenas vibram quando seus pais as levam a um parque. Outras, quando vão viajar ou fazer algum passeio. Em famílias atípicas como a nossa, no entanto, até o motivo da euforia de uma criança de 3 anos pode ser diferente. 
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Matheus é nosso segundo filho, nascido no ano seguinte ao do Paulo. A diferença entre os dois é de 1 ano e 8 meses. Ele ainda é pequeno e, desde sempre, viu o irmão Paulo fazer inúmeras terapias. 
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Ontem, o motivo da euforia do Matheus era de que ELE tinha médico. Não é a primeira vez que ele fica feliz por fazer algo que o irmão mais velho faz, ainda que se trate de consulta médica (!!!). 
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Engraçado? Curioso? O fato é que este tipo de situação sempre nos faz pensar sobre os IRMÃOS de crianças com deficiência. Sentem ciúmes? Sentem-se deixados de lado? Ou, ao contrário, sentem-se diferentes? Entendem o que acontece? 
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Cada família terá sua realidade, cada pessoa é um mundo único, mas um sentimento comum pode aparecer em todas as casas: os ciúmes. Como lidar com os possíveis ciúmes dos irmãos de crianças com deficiência? 
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Antes de mais nada, é importante prestar atenção aos sinais que a criança dá. Nem sempre os ciúmes ficam evidentes. Aqui em casa, os sinais já foram brandos (como uma super empolgação para ir ao médico) e também mais desafiadores (como comportamentos difíceis). Também é preciso lembrar que nem tudo gira em torno do assunto “deficiência” ou tem relação com a rotina de tratamentos do irmão. Por mais que a condição de saúde de uma pessoa da família tenha grande impacto na rotina de todos, nem tudo deve girar em torno dela  — até porque os ciúmes ou qualquer outro sentimento pode ter muitas outras causas. 

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Se, de fato, houver ciúmes, vale a reflexão: será que nós, os pais, estamos cuidando mais do filho que requer atenção médica? Por mais que os outros não precisem de tratamentos, estão recebendo outras formas de atenção?

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Também pode trazer bons resultados o hábito de conversar com as crianças claramente sobre o assunto. Nosso segundo filho Matheus tinha apenas 1 ano e meio quando eu (Kerol), sentei com ele na sacada de nossa casa para ter uma conversa mais profunda com ele. Eu estava um pouco confusa, sem saber ao certo o que dizer, mas precisava encontrar uma maneira de explicar a ele por que apenas o Paulo havia entrado na sessão de musicoterapia. Eu não sabia o quanto ele iria entender daquela conversa, mas mesmo assim falei:

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“Você já reparou que você consegue falar e fazer muitas outras coisas sem dificuldade? Pois é, o seu irmão precisa de ajuda para conseguir fazer essas coisas, por isso ele vai às terapias”. 

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Precisamos ter essas conversas algumas vezes depois disso, e foi incrível o quanto ele parece ter entendido. Foi bom não só para ele começar a entender, mas também para que o assunto fosse sempre tratado com naturalidade. 

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Outra maneira que encontramos de lidar com os possíveis ciúmes foi ter momentos exclusivos com cada filho. Paulo passa muito tempo com a gente por causa das terapias; então, em alguns dias, separamos tempo para estar somente com o Matheus e também somente com a Amanda. Nessas situações, fica bem claro para nós o quanto as mater/paternidades típica e atípica têm suas diferenças — e o quanto é enriquecedor vivenciar as duas. 

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Fazer tudo isso evita ciúmes? Não necessariamente. Você, pai/mãe, pode fazer mil coisas e ter as melhores intenções do mundo, mas não pode controlar, por exemplo, *a interpretação que a criança pode fazer* (consciente ou inconsciente) sobre a atenção recebida pelo irmão com deficiência. O que fazer, então? 

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Não podemos controlar os sentimentos e interpretações que as crianças possam ter em relação a isso, mas podemos, sim, controlar o que NÓS, adultos, podemos fazer por elas. Podemos nos esforçar por demonstrar nosso amor a elas com frequência. Podemos ensiná-las a lidar com os ciúmes (o que vai ser muito útil no futuro delas). Podemos, também, mostrar o quanto a convivência com uma pessoa com deficiência vai desenvolver nela habilidades que serão muito úteis ao longo da vida (é o que os pesquisadores chamam de “Vantagem da Empatia”, segundo a psicóloga americana Michele Borba). 

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Desta forma, toda esta experiência vai trazer resultados muito positivos. Mesmo que haja ciúmes às vezes, o que mais vai importar será o que faremos com este sentimento — e o principal: o que aprenderemos com ele.  

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